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A Absolvição

"Todo mundo tem"

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O perdão é a vingança da Sabedoria. (CHRISTIAN WERNICKE, produtor de epigramas e diplomata germano. Elbing – Reino da Polônia, janeiro de 1661; Copenhague – Reino da Alemanha, 5 de setembro de 1725).         

 

 

            Há frases banais que, por alguma razão, produzem um incômodo persistente. Entre elas, uma se destaca com especial eficácia: “Todo mundo tem”.

            Não é a expressão em seu sentido literal que causa estranhamento — seria absurdo contestar uma constatação de tal modo simples. O problema está no uso que dela se faz: não para descrever a realidade, mas para alargá-la artificialmente, convertendo uma parcela em totalidade, uma exceção em regra e, sobretudo, o privilégio de poucos na medida do que deveria ser comum, apropriado a todos.

            É bastante alguns possuírem algo para que se anuncie, com naturalidade, a suspeita de que “todo mundo tem”, ainda que esse “todo mundo” não passe de uma fração reduzida da população. Forma-se, com efeito, uma espécie de ilusão estatística, porquanto o que é restrito aufere aparência de universal.

           Essa conjunção linguística não é inocente. Cumpre função precisa: neutralizar o desconforto do excesso. Ao ser repetida, a sentença converte extravagância em normalidade, supérfluo em necessidade e acúmulo em simples hábito. Se todos têm, não há exagero; caso todos comprem, inexiste desperdício; a totalidade desejando, falta motivo para interrogar o desejo.

        O curioso é que essa generalização raramente resiste a um exame mais atento. Muitos não possuem o que se afirma ser universal, e, mais revelador ainda, a maioria sequer o deseja nas proporções em que alguns o acumulam. Essa discrepância, todavia, é inconveniente demais para ser mantida. É mais confortável imaginar um desejo coletivo homogêneo, pois assim o excesso deixa de parecer exceção e se dissolve na aparência de normalidade.

            Há uma antiga intuição que sugere cautela ante o expresso como necessário. Nem tudo o que pretendemos é indispensável, tampouco a totalidade do que temos chance de possuir merece ser incorporada à vida. Entre desejo e necessidade, há uma distância que, quando ignorada, fragiliza a própria liberdade: quanto mais coisas julgamos essenciais, mais dependentes nos tornamos delas.

            É nesse ponto que a frase revela sua função mais profunda. A sentença sob comentário não somente descreve o desejo, pois ela o reorganiza. Ao repetir que algo é “de todo mundo”, desloca-se o eixo da percepção: o que antes não fazia parte das nossas aspirações tem, então, sentido como ausência, falta, algo que nos estaria sendo negado.

            O problema do excesso, portanto, não se limita à esfera econômica, ao se configurar, também, de ordem moral. Não somos só escravos do que possuímos, mas do que fomos levados a considerar indispensável. Cada nova necessidade artificial estreita um pouco mais o âmbito da liberdade, e quanto mais dependemos do que antes não nos fazia falta, mais facilmente, confundimos conforto com felicidade.

            Há, por isso, algo discretamente irônico nessa dicção. Perante três, quatro ou cinco versões da mesma coisa, alguém se tranquiliza, dizendo: “todo mundo tem”. É como se a multiplicação do mesmo objeto fosse capaz de transformar o excesso em medida razoável, ou como se a repetição coletiva de um equívoco se consumasse suficiente para convertê-lo em acerto.

            Confunde-se, de efeito, algo trivial com o que é bom. A frequência de um hábito não lhe confere legitimidade, mas o torna meramente mais visível. O fato de muitos desejarem algum espécime de interesse não prova sua necessidade, uma vez que somente revela a eficácia com que esse desejo foi disseminado.

            No universo do consumo, não é preciso impor: suficiente é sugerir. Como sugestão, o que os outros possuem é do que também deveríamos desfrutar, ao passo que a comparação faz o restante do trabalho. O supérfluo, então, deixa de parecer sobejo e ocioso e assume o formato de exigência silenciosa.

            Não é necessário que todos tenham. Basta que se diga que todos têm.

            Desde então, a frase se consolida como uma fórmula de conformismo. Ela evita perguntas incômodas: eu realmente preciso disso?; ou Apenas não quero ficar atrás dos outros? E, sobretudo: Se ninguém tivesse, eu ainda desejaria?

            Certamente, esta última é a indagação decisiva — e, justamente por isso, a mais evitada. Isto porque o problema não está em possuir muito, nem em usufruir do conforto quando ele é possível. O problema tem vez quando o excesso precisa ser convertido em norma para não ser reconhecido como superfluidade. Quando deixamos de dizer “eu quero” para exprimir “todo mundo tem”, já não estamos justificando uma escolha – pois é patente a procura por uma desculpa.

            Eis a sutileza dessa pequena tirania. Ela transforma a multidão em álibi e expressa como necessidade o que, com frequência, não passa de desejo repetido.

            Uma sociedade é passível de ser mais lúcida, isto é, talvez tenha início no dia em que deixarmos de perguntar se “todo mundo tem” e indagarmos, com alguma honestidade:

 

“Para que preciso eu disso?”

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Valdester Cavalcante Pinto Júnior

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