A Cabeça e o Fim

A cabeça parece pequena para tanto pensamento. Há ideias que não cabem e, por não terem lugar, ficam fazendo morada onde já não há espaço.
Não configuram pensamentos puros. Conduzem o passado, misturam-se ao que fui, não fui, ao que ainda teimo em me lembrar.
E, como se isso não bastasse, têm a audácia de esquadrinhar o futuro, inventar o que ainda não existe e sofrer, desde já, pelo que é possível, até, de jamais acontecer.
Então, aquece. A cabeça esquenta, se acalora tanto, igual a uma panela esquecida no fogo, fechada, sem escape para a pressão. E, dentro dela, o juízo fermenta, as ideias se proporcionam, umas sobre as outras, até já não se saber onde termina o pensamento e se enfronha a angústia.
É provável, pois, ser por isso que a vontade queira parir tudo o que permaneceu guardado: as palavras não ditas, os gestos adiados e as coisas por mim pensadas demais e vividas de menos.
Não sei se me vou curar disso. Isto porque é provável não haver remédio para a pessoa que pensa como quem respira, igualmente ao ser humano que respira procurando uma saída dentro de si.
Já transitei por épocas melhores. Hoje, entretanto, a conjuntura sobra bem pior. E há dias em que, a cada passagem cotidiana, sinto as 24 horas passadas representarem menos um ciclo, é reduzido outro dia vivido, desaparece mais um pedaço diurno possível, é subtraída mais uma fatia do tempo que eu acreditava possuir.
E, em ditas circunstâncias – não tem jeito --, a mente se revolta. Não sei se contra a morte ou em desfavor da ideia da velha Foice. Há qualquer coisa de injusto em saber que toda reflexão por nós procedida, a totalidade das ideias reflexas, o que ainda poderíamos ser, possuem um limite não nos destinado à escolha.
A finitude é uma palavra pequena para uma coisa tão grande. E eu, que mal caibo na cabeça, como hei de ficar contido dentro de um fim?