A Geometria Moral das Circunstâncias

Havia, em certa cidade muito próspera e muito satisfeita consigo mesma, um homem que possuía rara reputação de coerência. Ninguém sabia em que consistia essa virtude, mas todos concordavam que ele a possuía, o que é uma maneira bastante segura de adquirir reputação.
O cidadão sob comentário tinha opiniões firmes sobre quase tudo. Ao estar sentado à direita, considerava a destra indispensável. Quando, por alguma mudança inesperada da fortuna, encontrava-se à esquerda, descobria razões igualmente sólidas para considerar a sinistra imprescindível. Não via nisso contradição alguma. Dizia que apenas amadurecera.
— Mas ontem o senhor dizia exatamente o contrário — observou certa vez um amigo.
— Ontem eu era outro homem — respondeu ele.
— E isso não lhe parece uma mudança?
— Absolutamente. Chama-se evolução.
O amigo, que não era filósofo, mas possuía memória, preferiu não insistir.
Havia, entretanto, uma coisa que o homem não tolerava: mudanças nos outros.
Se um adversário mudasse de opinião, era incoerência. Se mudasse de posição, era oportunismo. Se mudasse de lado, era falta de caráter.
Quando ele próprio fazia o mesmo, havia sempre uma palavra mais nobre disponível.
Oportunismo tornava-se pragmatismo. Covardia transformava-se em prudência. Ressentimento adquiria o título de justiça. E uma mudança de lado, quando praticada por ele, recebia a respeitável denominação de amadurecimento.
A cidade admirava sua habilidade.
Certa manhã, porém, o homem descobriu que um de seus antigos companheiros havia cometido o imperdoável delito de discordar dele.
Chamou-o de incoerente.
A acusação espalhou-se rapidamente, pois as acusações possuem uma vantagem sobre as explicações: não precisam provar nada para produzir efeitos.
— Ele mudou de princípios — dizia o homem.
— Quais princípios? — perguntou alguém.
O homem hesitou por um instante.
— Os princípios que eu sempre defendi.
A resposta pareceu suficiente.
Foi então que apareceu um velho, conhecido por fazer perguntas em momentos pouco convenientes.
— Perdoe-me — disse ele —, mas o senhor sempre defendeu esses princípios?
— Naturalmente.
— E quando deixou de defendê-los?
O homem franziu a testa.
— Nunca deixei.
— Mas há documentos.
— Documentos são coisas muito literais.
— E há testemunhas.
— Testemunhas têm memória.
— E há suas próprias palavras.
O homem sorriu.
— Meu caro, palavras precisam ser compreendidas no contexto.
O velho inclinou a cabeça.
— Então talvez o contexto tenha mudado.
— Exatamente!
— E os princípios?
O homem não respondeu.
O velho sorriu.
— Compreendo. O contexto mudou e, por uma extraordinária coincidência, os princípios mudaram junto.
Ninguém riu.
Não porque a observação fosse séria, mas porque era verdadeira demais para ser engraçada.
O homem então decidiu explicar melhor.
Disse que não havia mudado de princípios, apenas de circunstâncias. Que as circunstâncias exigiam novas interpretações. Que a realidade não podia ser ignorada. Que pessoas inteligentes precisavam adaptar-se.
Tudo isso era perfeitamente razoável.
Tão razoável que quase ninguém percebeu a pequena diferença entre adaptar-se à realidade e adaptar os princípios à conveniência.
A razão, aliás, prestava excelentes serviços nesses assuntos. Era uma espécie de advogado particular: nunca chegava antes da decisão, mas aparecia imediatamente depois para encontrar argumentos capazes de torná-la inevitável.
A consciência ajudava bastante. Mantinha um departamento de relações públicas dedicado a reorganizar a memória. Algumas coisas desapareciam; outras mudavam de nome; acontecimentos desagradáveis eram transferidos para a categoria das “circunstâncias complexas”.
Assim, o homem continuava sendo coerente.
Ao menos na própria narrativa.
Foi quando o velho fez uma última pergunta:
— Diga-me uma coisa. Se o seu adversário tivesse feito exatamente aquilo que o senhor fez, o senhor o chamaria de prudente?
— De maneira alguma.
— De pragmático?
— Certamente não.
— De amadurecido?
— Muito menos.
— Então como chamaria?
O homem pensou um pouco.
— Incoerente.
O velho assentiu.
— É uma palavra interessante. Só não consigo descobrir por que ela funciona tão bem quando aplicada aos outros e tão mal quando aplicada ao senhor.
O homem levantou-se indignado.
— Está insinuando que sou incoerente?
— Não — respondeu o velho. — Estou apenas comparando suas palavras de hoje com as de ontem. A comparação é que parece estar fazendo a acusação.
E foi embora.
A cidade permaneceu em silêncio durante alguns minutos, o que era bastante tempo para uma cidade acostumada a opiniões instantâneas.
Depois, como acontece em toda cidade civilizada, cada um voltou para casa com a certeza de que o velho estava falando de outra pessoa.
Quanto ao homem, continuou acusando os outros de mudar.
Era sua maneira mais eficaz de não ser obrigado a explicar as próprias mudanças.
E talvez tenha sido essa a sua maior obra de coerência: permanecer rigorosamente fiel à ideia de que os princípios devem acompanhar as circunstâncias — desde que ninguém perceba que são as circunstâncias que estão escolhendo os princípios.
No fim, descobriu-se uma verdade muito simples.
Mudar de ideia não é desonra. Reconhecer um erro pode ser uma forma de grandeza. O que torna a mudança ridícula é transformá-la em prova de virtude e, depois, acusar o outro pelo mesmo movimento.
Quem muda de pensamento e diz “eu estava errado” conserva alguma dignidade.
Quem muda de princípio e diz “você não entendeu” conserva apenas a aparência.
E a aparência, naquela cidade, era uma instituição respeitadíssima.
Tinha apenas um pequeno defeito: dependia da memória dos outros.
E a memória, para grande infelicidade dos que vivem de versões, às vezes se recusa a colaborar.