A Herança Invisível
da Cirurgia

O detalhe de hoje será o caminho de amanhã.
Há informações diversas, a que naturalmente demandamos. Estas, de tão supérfluas, logo quando nos chegam, já se dissipam da memória, como se jamais houvessem ali encontrado morada. Outras, excessivamente fúteis, vêm, mesmo que não as tenhamos solicitado — e estas, por sinal, parecem constituir o modo predileto de convivência de muitos. Quanto mais íntimo o fato, mais célere se torna sua circulação pelos corredores da conversa, pela via dos recônditos da curiosidade alheia.
Outras comunicações — de fundamental importância — não raro nos alcançam pela insistência. Reclamam-nos a atenção e impostas são à consciência, não poucas vezes, determinando uma conduta. São informes a iluminar caminhos, orientar escolhas e, em certas circunstâncias, estes determinam uma fronteira decisiva entre a vida e a morte.
Tal distinção, propícia a parecer somente uma consideração acerca da vida cotidiana, adquire outra dimensão quando transposta para o exercício de algumas profissões. Há ofícios nos quais a informação não é mero adorno do conhecimento, tampouco simples instrumento de comunicação, pois representa a própria matéria sobre a qual se edificam as decisões. É dessas informações que vivem as profissões e, de modo particular, a medicina — e, mais pontualmente, a que pratico: a cirurgia cardíaca pediátrica.
Nela, o detalhe informacional não é só um elemento acessório do exercício profissional, matéria-prima da própria decisão. Em todos as passagens do tratamento, cada dado adquire relevância singular e interfere diretamente na conduta a ser adotada: desde o diagnóstico, passando pelo momento oportuno da intervenção, transitando pelas estratégias cirúrgicas escolhidas, encaminhando-se por meio das condutas do período pós-operatório e, não menos importante, por via do acompanhamento que se vai estender por toda a vida do paciente.
No âmbito da cirurgia, determinados detalhes anatômicos assumem missão preponderante. Há correções cuja possibilidade de êxito está condicionada à factibilidade do acesso ao defeito e, consequentemente, à possibilidade concreta de sua resolução. A condição a que, aos olhos de quem não participa do ato operatório, pareceria um pormenor anatômico, à percepção do médico operador configura a própria fronteira entre o possível e o impossível, em meio a uma estratégia segura e uma abordagem de risco.
É nas re-intervenções, numerosas e frequentemente complexas, que essa realidade se torna ainda mais evidente. As táticas cirúrgicas futuras estão, muitas vezes, profundamente condicionadas pelas escolhas realizadas nas operações anteriores e, sobretudo, pelas alterações anatômicas que delas resultaram. A estrutura modificada, uma comunicação deixada intencionalmente, a reconstituição realizada em determinado plano ou qualquer particularidade não adequadamente documentada adquirem, anos mais tarde, uma importância que não teve condição de ser antecipada aquando da primeira intervenção.
Assim, a informação cirúrgica não se encerra quando termina uma operação, pois perpassa o tempo, acompanha o paciente e ressurge, bem a posteriori, como elemento determinante para uma nova decisão. O que hoje parece detalhe amanhã constituirá a chave para compreender uma anatomia, estabelecer um acesso, escolher uma estratégia ou evitar qualquer complicação.
Com efeito, aí é onde reside uma das maiores responsabilidades da medicina: não basta agir corretamente, porquanto se impõe deixar para os que virão depois de nós a informação necessária, com vistas a que ajam corretamente também. Uma conduta bem executada, porém, defeituosamente documentada, perde parte de seu valor com o transcurso temporal. A informação incompleta, imprecisa ou dissociada da verdade transforma-se, no caso de futura intervenção, em um obstáculo cuja dimensão só se revela quando já não há espaço para corrigi-lo.
Na cirurgia cardíaca pediátrica, na qual o paciente, com frequência, transpõe décadas de vida sob a influência das decisões tomadas nos primeiros anos, cada informação ultrapassa o instante em que foi produzida, tornando-se herança clínica. Orienta quem continuará o tratamento. Explica o presente pelo passado. E, em determinadas circunstâncias, é o elemento que concederá oportunidade a outro cirurgião encontrar o caminho possível em meio a uma anatomia que já não é a que um dia se exibiu perante os facultativos operadores atuais.
Por expressos pretextos, necessário é distinguir, em transposição ao nosso conhecimento, o que merece ser sabido, isto é, não somente a situação a nós ensejada conhecer, mas o que, uma vez conhecido, é capaz de transformar o curso de nossas decisões. Tal sucede porque, quando a verdade está em jogo, uma informação mal alicerçada não é simples futilidade, porém significa o fundamento sobre o qual se ergue uma escolha de consequências irreversíveis.
E essa é a maior das dimensões da informação na medicina, pelo fato de não pertencer inteiramente a quem a produz, tampouco se esgota no instante do seu registro. Ela pertence, sobretudo, ao paciente e ao tempo. É uma herdade que perpassa mãos, equipes e gerações. Quando verdadeira, precisa e adequadamente transmitida, ilumina o caminho de quem virá em devir bem próximo ou em futuro mais longínquo. Quando ausente, incompleta ou equivocada, obscurece a trilha dos operadores na ocasião em que mais eles necessitam de luz.