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A Sublime Caridade
da Miséria

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​            Enternecedora solicitude demonstram os augustos senhores do poder — sobretudo o financeiro — ao declamarem, entre taças de vinho e cifras offshore, suas eloquentes homilias sobre o “empreendedorismo” dos desvalidos.

​Eles descobriram a fórmula alquímica de a virtude: converter direitos em favores e chamar desamparo de liberdade econômica. Tal prodígio moral, talvez merecesse um tratado inteiro daqueles sábios especializados em transformar conveniência em princípio e ganância em ciência social.

​            Precarizar o trabalho alheio, para tais luminares, possui a elegância de uma dieta moral: emagrece-lhes as responsabilidades enquanto lhes engorda as contas bancárias, prudentemente hospedadas em paragens onde as garras do leão fiscal jamais ousam alcançar. Eis a filantropia moderna — explorar com eficiência e discursar com ternura. O mercador converteu-se em sacerdote; o lucro, em dogma; e o sofrimento humano, numa estatística expressa em relatórios trimestrais com a serenidade matemática de quem jamais teve de escolher entre alimentar-se ou pagar juros.

 

​            Quanto aos desgraçados — e são muitos — resta-lhes a sublime honra de sobreviver. E há ainda os devotos dessa ordem miserável, prontos a defender com fervor quase religioso o suplício de trabalhar sem garantias, tampouco descanso e, frequentemente, sem salário digno. Trabalha-se incessantemente para merecer meramente o básico; e este, por sua vez, tornou-se um luxo reservado aos acionistas da miséria. A vontade humana parece uma engrenagem cega e insaciável, condenada a consumir tudo ao redor sem jamais alcançar satisfação. O pobre trabalha até o esgotamento para subsistir; o rico acumula até a obscenidade para aplacar um vazio que o ouro não preenche. Ambos sofrem — mas somente um deles sofre com elegância suficiente para publicar artigos sobre meritocracia.

 

​            Há, contudo, algo ainda mais admirável nesse teatro econômico: a extraordinária capacidade de transformar exploração em virtude e submissão em moralidade pública. Chama-se de “liberdade” a obrigação de aceitar qualquer condição para não morrer de fome; denomina-se “flexibilidade” a insegurança permanente; nomeia-se como “oportunidade” aquilo que outrora se chamava servidão. Os homens pequenos, quando revestidos de poder, raramente, produzem grandeza, mas revelam um talento singular para converter cinismo em doutrina e egoísmo em política de Estado.

​            Imagine-se, então, a cena, tão comum que já não escandaliza senão os ingênuos: uma enfermeira, prestadora de serviço a um hospital público, por intermédio de uma cooperativa que lhe drena os rendimentos com a eficiência de um parasita institucionalizado. O pagamento, insuficiente por natureza, atrasa por hábito. Ela me relata, com aquele sorriso peculiar do desespero domesticado, que os boletos acumulam atraso e que sequer pode adoecer — pois, se não trabalha, não recebe; e, para coroar a benevolência do sistema, ainda deve pagar a coparticipação do plano de saúde.

​            Eis aí a modalidade mais refinada da violência contemporânea: não aquela dos tiranos caricatos e das botas militares, mas a banalidade burocrática do sofrimento administrado. Ninguém parece responsável; todos somente “seguem protocolos”, “cumprem contratos”, “obedecem às exigências do mercado”. Assim, a crueldade deixa de possuir rosto e passa a operar como máquina — limpa, racional, eficiente e perfeitamente legal. O horror moderno já não precisa gritar: ele envia e-mails, assina planilhas e terceiriza responsabilidades.

​            Um povo mantido no medo e na exaustão jamais alcança verdadeira liberdade. Não é livre aquele que trabalha aterrorizado por fome, doença ou despejo iminente. A servidão perfeita não é a imposta pela força bruta, mas aquela em que os próprios oprimidos são persuadidos de que seu sofrimento constitui ordem natural das coisas — e chegam até mesmo a defender os mecanismos que os esmagam.

​            Ah! Realmente, senhores dessa aristocracia pútrida: o mundo que edificastes é admiravelmente justo. Tão justo que os pobres já não têm sequer o direito de adoecer sem pedir licença ao mercado. E talvez seja precisamente essa a maior façanha de vossa civilização: transformar a miséria em disciplina moral, o cansaço em virtude e a humilhação cotidiana em indicador de produtividade.

 

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Valdester Cavalcante Pinto Júnior

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