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Antes do começo: os caminhos
de uma subespecialidade

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“Todo começo guarda em si uma história que o precede.”

 

     Quando uma instituição é inaugurada, raramente os(as) que partícipes desse momento percebem que estão escrevendo uma página da história. Vive-se, inauguralmente, uma necessidade do presente, inquietação a exigir resposta. Somente o tempo enseja compreender a verdadeira dimensão desse gesto.

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     Foi assim com a criação do Departamento de Cirurgia Cardiovascular Pediátrica da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (DCCVPed). Sua existência institucional começou em 2003, mas sua história tivera bem anterior início.

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     Antes de existir um departamento, cirurgiões arrostavam os desafios da cirurgia cardiovascular em crianças. Havia operações pioneiras, dificuldades técnicas, limitações de recursos e resultados nem sempre satisfatórios, sobretudo, disposição para aprender com cada experiência.

     Hospitais e centros especializados, também, construíam suas estruturas. Profissionais de searas distintas compartilhavam conhecimentos, enquanto famílias depositavam nos médicos a esperança de um futuro possível para seus filhos.

Essa conjunção de experiências fez amadurecer, à extensão das décadas, a cirurgia cardiovascular pediátrica brasileira. Cada geração recebeu conhecimentos, técnicas, erros e acertos daqueles que a antecederam. A toda etapa, foi acrescentado algo a esse patrimônio coletivo.

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     Por isso, a instituição do DCCVPed não deve ser divisada como um ponto de partida absoluto. Foi o momento em que uma história encontrou uma maneira institucional capaz de representá-la, organizá-la e projetá-la. para o futuro.

Naquele momento, tornava-se cada vez mais necessária uma estrutura específica para dialogar com o Ministério da Saúde e defender, de maneira organizada, os interesses da cirurgia cardiovascular pediátrica.

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     Em 3 de abril de 2003, durante o 30º Congresso Nacional de Cirurgia Cardíaca, em Goiânia, apresentei, em reunião da diretoria da SBCCV, a proposta de criação do Departamento de Cirurgia Cardiovascular Pediátrica. Dita propositura foi aceita por unanimidade.

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     No dia imediatamente seguinte, durante a Assembleia Geral da SBCCV, também em Goiânia, detalhei as razões para a criação do Departamento e entreguei a relação de assinantes exigida pelo estatuto. Ficou estabelecido que sua fundação seria submetida à Assembleia seguinte da Sociedade, durante o Congresso de Cardiologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

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     Esse momento ocorreu em 29 de setembro de 2003, em Salvador, Bahia, durante a Assembleia Extraordinária da SBCCV, realizada por ocasião do 58º Congresso Brasileiro de Cardiologia. Após a aprovação dos estatutos, o DCCVPed foi oficialmente fundado.

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     Sua primeira diretoria foi constituída por Valdester Cavalcante Pinto Júnior, presidente; Marcelo Biscegli Jatene, secretário; Fábio Said Sallum, tesoureiro; e Ulisses Alexandre Croti, diretor científico.

 

     A criação, entretanto, não ocorreu sem resistências. Desde o início, havia quem entendesse que um departamento específico representaria o risco de uma nova sociedade, enfraquecendo a SBCCV ou dificultando a atuação profissional de alguns cirurgiões cardiovasculares. Essas divergências se tornaram mais evidentes posteriormente, em especial, durante as discussões relacionadas à elaboração da portaria ministerial, que reconheceria a cirurgia cardiovascular pediátrica.

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     Também não havia, naquele início, uma estrutura financeira consolidada. As primeiras reuniões e viagens da diretoria dependiam, muitas vezes, de contribuições dos próprios diretores. Era uma instituição jovem, ainda em demanda de espaço, identidade e caminhos.

     

     Sob tais circunstâncias, porém, encontra-se uma das características mais apreciáveis de uma fundação: ela não nasce pronta. Precisa ser constituída por quem acredita valer a pena dar continuidade a uma ideia.

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     Desde sua criação, a história do DCCVPed foi escrita por sucessivas diretorias. Cada uma recebeu o Departamento nas condições deixadas pela anterior e assumiu a responsabilidade de fazê-lo avançar.

Algumas contribuíram para sua organização e consolidação institucional. Outras fortaleceram a produção científica, a formação profissional e a representação nacional. Houve, também, aquelas que ampliaram seus vínculos e sua presença na ambiência internacional.

     

     Nenhuma diretoria, isoladamente, seria capaz de realizar tudo isso. A força esteve na continuidade. O Departamento cresceu, à medida que distintos grupos de profissionais, em variados momentos, dispuseram seu trabalho a serviço de um mesmo projeto.

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     Foi assim, gradual e cumulativamente, que o DCCVPed alcançou reconhecimento científico e institucional no Brasil e no concerto internacional. Essa trajetória criou as condições para uma conquista: o reconhecimento da cirurgia cardiovascular pediátrica como subespecialidade da cirurgia cardiovascular.

Essa manifestação representava mais do que uma denominação. Significava reconhecer que a cirurgia cardiovascular pediátrica havia alcançado identidade própria, com específicos conhecimentos, formação diferenciada, experiência acumulada, desafios particulares e uma comunidade profissional capaz de representá-la.

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      A fundação do Departamento foi, portanto, só uma etapa de estruturação muito maior. O que nasceu em 2003 conformou uma composição institucional. Seu sentido, porém, vinha sendo estabelecido há muitos anos e continuaria a ser ampliado pelas gerações seguintes.

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     Por isso, enaltecer o DCCVPed é também exaltar aqueles que o conduziu. Todas as diretorias receberam uma instituição que não lhes pertencia. Acolheram-na como herança e, ao mesmo tempo, na condição  de responsabilidade. Coube a cada grupo preservar o que havia sido constituído, enfrentar os desafios de seu tempo e acrescentar algo a ser entregue à geração seguinte.

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     Nessa direção, os presidentes do DCCVPed representam muito mais do que períodos administrativos. Seus nomes assinalam variados momentos de uma mesma caminhada. São homens e mulheres que situaram conhecimento, trabalho, dedicação e, muitas vezes, sacrifícios pessoais a serviço de uma ideia que ultrapassava as próprias gestões.

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     A história de uma instituição não se faz meramente pelos grandes acontecimentos. Realiza-se, também, por via de reuniões, decisões difíceis e debates, bem assim por meio de projetos realizados e mediante os que precisaram ser refeitos. Efetiva-se pelas portas abertas e, sobretudo, por intermédio das pessoas que aceitaram a responsabilidade de a conduzir.

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     Registrar seus nomes é, portanto, uma maneira de agradecer. Expressa reconhecer o que hoje existe não como produto de única pessoa, mas feito resultado de uma sucessão de compromissos.

 

A galeria de presidentes, exibida na fototeca do site, é parte da própria história do DCCVPed. Cada nome representa uma etapa, uma diretoria, um tempo e uma contribuição. Juntos, eles revelam a continuidade de um projeto que nasceu em 2003 e alcançou maturidade porque muitas pessoas aceitaram, geração após geração, a tarefa de levá-lo adiante.

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Valdester Cavalcante Pinto Júnior

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