Há instantes que não têm hora,
nem data, nem relógio.
São como pedras na alma –
não se esquecem porque são marcos,
não do tempo, mas do ser.
Foi num desses que passei a fazer.
A mão que estudava,
agora cortava.
O gesto, antes ensaiado,
tornou-se destino.
Ser livre, descobri,
é saber que a culpa não tem onde pousar
senão em nós.
Não há liberdade sem o peso
de sabê-la inteira.
Vim de onde se ensinava o exato.
A precisão era o ideal,
o gesto, um mapa.
Mas a realidade não lê manuais.
Cheguei onde nada funcionava
como deveria,
e mesmo assim
sabia que era ali que devia estar.
Não para repetir –
repetir é para os autômatos –
mas para inventar.
Onde não há trilho,
caminha-se como quem sonha
e acorda em cada passo.
Operava com pouco,
orientava com o que tinha,
e via crianças que chegavam tarde demais,
não por culpa de ninguém,
mas por culpa de todos.
Doía.
Não nos instrumentos,
mas em mim.
Doía como culpa
mesmo quando não era minha.
E talvez seja isso ser jovem:
pensar que tudo que falha, falha por nós.
Quiseram que eu parasse.
Mas parar é também continuar:
a dor voltaria amanhã,
com outro nome,
a mesma face.
Por isso fui.
Por isso sigo.
Algumas vitórias, outras perdas.
Mas nenhuma sem sentido.
E hoje sei:
o mundo nunca será fácil.
Nem justo.
Nem previsível.
Mas agir –
agir é ainda o que nos resta,
é onde o humano se inscreve
entre o acaso e o querer.
E é nesse intervalo sem chão,
entre a mão que toca e o real que escapa,
que mora, secreta,
a dignidade de estar vivo.
