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Nasci com um sopro, um descompasso,

um erro de cálculo do destino,

uma sombra no ritmo invisível do sangue.

Não sei se foi Deus que se distraiu,

se a matéria que me fez veio incompleta,

ou se sou apenas um esboço mal-acabado

de alguém que nunca fui.

 

Mãe dizia coisas baixinho,

olhava para o céu como quem busca sentido.

Pai baixava os olhos,

 

como se as respostas estivessem no chão.

O médico fazia contas,

 

o papel riscava meu nome,

e eu – que nunca soube bem onde começar –

aprendi cedo que existir é esperar.

 

Lá fora os meninos corriam,

como se a vida fosse simples,

como se os pulmões não pesassem,

como se o mundo tivesse sido feito para eles.

Mas eu, sempre fora do compasso,

soprava um ar que não vinha,

andava sem alcançar a chegada.

 

A fila era longa, como todas as esperas.

O tempo, esse estranho que nos atravessa,

dobrava-se em gestos repetidos.

Uns entravam, outros saíam,

alguns apenas se perdiam.

E eu, pequeno e invisível,

sentia os dias escorrendo pelos dedos

como areia de um relógio que não me pertencia.

 

Dizem que amor salva,

mas amor sem bisturi

é só uma ternura inútil,

uma promessa feita a ninguém.

 

E a cidade segue, indiferente,

de pedra, de ferro, de pressa.

Corações errantes, desencontrados,

batem na sombra de quem nunca os ouviu,

como um sino esquecido,

soando para um mundo que nunca parou.

Imagem do Codex 22 de set_edited_edited.

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Valdester Cavalcante Pinto Júnior

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