top of page

Entre o Pranto e o abraço

ChatGPT Image 28 de ago. de 2026, 18_33_06.png

A vida – eis o derradeiro hábito que devemos perder, porque é o primeiro que adquirimos.  (ALEXANDRE DUMAS FILHO. Paris, 27.07.1824: Marly-le-Roi, , 27.11.1895).                                       

​​​

      Dois acontecimentos, separados por poucos metros e um intervalo de minutos, enlaçaram-se de tal modo que se confundiram dentro de mim. Um conduzia ao limite da perda; o outro, ao alívio da vida restituída. Entre ambos, descobri, mais uma vez, o verdadeiro peso da medicina. 

​

      Fui chamado às pressas para assistir uma menina submetida a uma cirurgia naquela mesma manhã. Pouco depois do procedimento, ela sofrera parada cardiorrespiratória prolongada, de uns vinte e cinco minutos. Sua circulação mantinha-se apenas por elevadas doses de drogas vasoativas. A conclusão era inevitável: sem a implantação imediata de um sistema de suporte circulatório mecânico, morreria em poucas horas. 

​

      Seu pai foi informado da gravidade do quadro e, ao chegar ao leito da filha, encontrou-nos tentando oferecer à ciência mais uma oportunidade de vencer o tempo. Aproximou-se da menina, tomou-lhe a mão e, entre lágrimas, suplicava para que ela permanecesse viva. 

​

Enquanto o observava, uma pergunta surgiu em silêncio.

 

     Que vida é esta, a minha, que tantas vezes me impõe o dever de lutar quando tudo parece anunciar o desfecho? Mais difícil, porém, do que enfrentar a doença é permanecer diante daquele que vê partir o próprio filho sem condição de fazer absolutamente nada. Existem dores perante as quais o conhecimento se cala. Nesses instantes, a medicina já não basta. 

​

      Expliquei-lhe a terapêutica que iniciaríamos imediatamente. Não lhe ofereci promessas, somente a possibilidade. Depois, retirei-me, discretamente. Pareceu-me que aquele era um instante a pertencer somente aos dois. 

 

     Sentei-me do lado de fora, enquanto a equipe preparava o circuito de suporte circulatório. Pela porta entreaberta, via aquele pai acariciar os cabelos da pequena, segurar-lhe a mão e falar-lhe ao ouvido. Não conseguia ouvir suas palavras. Tampouco era necessário. 

​

Ali permaneciam apenas um pai e sua filha.

​

     Em mim conviviam a tristeza daquela cena, o cansaço acumulado de semanas sem verdadeiro descanso e um sono insistente que tornava os movimentos lentos. Levantei-me e caminhei pelos corredores da unidade de terapia intensiva, tentando afastar a exaustão. 

​

     Eis que, de inopino, fui chamado pelos pais de outra criança.

​

Ela havia sido operada uma semana antes. Também perpassara dias de extrema instabilidade, durante os quais a foice parecera rondar seu leito, com insistência. Naquela ocasião, entretanto, encontrava-se estável. O ambiente ao redor era outro. Havia serenidade onde, dias antes, existira meramente apreensão. 

 

      A diferença entre aqueles dois quartos era quase insuportável. 

Em um deles, um pai velava a filha sem saber se voltaria a ouvir sua voz. No outro, outro genitor preparava-se para levá-la para casa. 

​

     Ao me aproximar, ele sorriu. Havia nos seus olhos uma leveza que reconheci de imediato: era o alívio de quem voltava a respirar depois de alguns dias vivendo suspenso entre a esperança e o temor. 

Então, aproximou-se de mim e perguntou, com simplicidade, se poderia me dar um abraço. 

     

Nunca me esquecerei daquele instante. 

​

     Não havia solenidade. Tampouco discurso. Meramente um homem envolvendo outro nos braços. 

​

     Durante alguns segundos, tive a impressão de que alguém dividia comigo um peso que, até então, eu acreditava carregar sozinho. O cansaço pareceu diminuir. O sono desapareceu. O corredor continuava o mesmo, as responsabilidades eram semelhantes, a menina permanecia lutando pela vida no quarto ao lado. Nada havia mudado. E, no entanto, tudo era diferente.

​

     Na medicina, convivemos diariamente com perdas, limitações e incertezas. As histórias interrompidas costumam permanecer conosco por muito mais tempo do que aquelas que terminam bem. Talvez por isso, às vezes, nos esqueçamos de quantas vidas conseguimos devolver às suas famílias! 

​

      Naquele dia, Deus permitiu que eu transitasse por dois quartos para que não me esquecesse do sentido da minha vocação. 

​

Saí de um deles conduzindo o pranto de um pai.

​

No outro, recebi um abraço.

​

Ler outras Crônicas

Copyright © 2026
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. 

Valdester Cavalcante Pinto Júnior

bottom of page