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O Coração que se
fez Cearense

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Discurso proferido na Assembleia Legislativa do

Estado do Ceará, por ocasião do recebimento

do Título de Cidadão Cearense.

 

"O Mundo Comum" 

           

     Há um sonho que carrego desde antes de saber seu nome. Um sonho que não nasceu em ideias, mas no desejo de oferecer cuidado onde há dor, de reparar com gestos o que o destino ou o descuido romperam no corpo de alguém. Sonhei ser médico não como quem demanda por glória, mas como quem se compromete com o simples – e, por isso mesmo, radical – ato de ajudar. A Medicina, no seu núcleo mais humano, é esse pacto silencioso com a fragilidade do outro.

     Ajudar, porém nunca é simples. O gesto de cuidar não é puro nem desimpedido. Ele acontece num mundo. E o mundo, como sabemos, é plural, marcado por fronteiras, preconceitos, desigualdades. Assim, quando parti para uma terra que não era minha, carregava comigo mais do que instrumentos ou saberes. Conduzia o peso de ser estrangeiro – e, no entanto, a esperança de que minha presença ali não fosse invasão, mas contribuição.

     Há algo de profundamente revelador nos olhares que nos recebem. O olhar que interroga, que duvida, que discrimina, torna-se não apenas um obstáculo exterior, mas um desafio íntimo. O estrangeiro – aquele que pertence à humanidade mas não à comunidade – deve justificar sua presença, provar sua intenção, oferecer, antes de ser aceito, resultados. Ser de fora é estar exposto ao julgamento, mas também é, paradoxalmente, estar mais livre para ver.

     E o que vi foi ausência. Uma ausência dilacerante de cuidado especializado, de estrutura, de política voltada às crianças com cardiopatias. Vi o abandono não como exceção, mas como regra sutil, naturalizada. E, diante disso, o sonho de ajudar tornou-se exigência moral: não bastava ser médico; era preciso ser fundador.

Não fundei, porém, nada sozinho. Esse percurso – que à distância pode parecer obra individual – foi, na realidade, um entrelaçar de vontades, saberes e esforços – cada qual trazendo sua presença, sua prática, sua coragem. O cuidado não se constrói na solidão. Ele é, por excelência, uma obra comum.

     Ainda assim, foi preciso aprender a conviver com o avesso desse esforço coletivo. Muitos ajudaram, sim. Alguns, porém, não suportaram o peso – legítimo, exaustivo – e desistiram. Outros continuam, mas já não com o ardor do início, como se o tempo tivesse apagado a esperança. E há ainda – e isso dói admitir – aqueles, que não são poucos, que permanecem indiferentes à causa. Ou pior: trabalham de modo constante, silencioso, para que ela fracasse.

     Aprendi, com o tempo, que isso incomoda mais do que o ato direto de negar ajuda. A indiferença disfarçada de neutralidade e o boicote mascarado de rotina não ferem somente a nós, profissionais. São traições que atravessam a linha da burocracia e atingem o que há de mais sagrado em nossa missão: ferem de morte as crianças que esperam por tratamento. Nesses gestos lentos, quase invisíveis, a vida vai sendo negada por omissão, por obstáculo, por descaso. E esse tipo de violência é talvez o mais covarde, porque se esconde sob a aparência de normalidade.

     Construir do zero é um ato político. Não no sentido partidário, mas no mais profundo: é o exercício de iniciar algo novo no mundo. A capacidade de começar algo novo – de romper com o dado e inaugurar o inesperado – é a própria marca da liberdade humana. Ao criar um serviço para cuidar dessas crianças, não busquei apenas responder a uma carência. Quis afirmar que cada vida importa, mesmo (e talvez sobretudo) quando ela nasce marcada pela fragilidade.

     Preciso, porém, é dizer: nem sempre foi possível proteger essas vidas. Houve momentos em que não pude conter as lágrimas. Momentos em que o sonho parecia desmoronar diante de uma perda que poderia ter sido evitada. Quando uma criança morre porque algo faltou – um medicamento, um exame, um gesto do sistema – não se trata apenas de luto. Trata-se de fracasso coletivo. E, mesmo assim, a dor não é dividida com o mesmo peso por todos. Às vezes, ela cai inteira sobre quem está na linha de frente.

     Essas lágrimas não são sinal de fraqueza. São memória. São denúncia. São o testemunho de que o sonho nunca foi apenas uma ideia abstrata – ele tinha nome, rosto, batimento. E quando esse batimento cessa, algo em nós também se cala.

Há algo, entretanto, que, ao longo do tempo, aprendi com essas quedas: a capacidade de resistir nelas. De levantar com maior força, não apesar da dor, mas por meio dela. Cada injustiça, cada abandono, cada tentativa de silenciamento tornou-se, paradoxalmente, um impulso para continuar. Aprendi que mesmo a dor pode conter sentido, se ela nos move na direção da responsabilidade. Porque resignar-se ao que é dado é ceder ao esquecimento. E esquecer, no campo do cuidado, é permitir que se repita o abandono.

     Ainda assim, nesses silêncios e na dor, reencontrei o sentido da ação. Porque agir, no mundo humano, é sempre agir entre outros. E, aos poucos, o que era sonho solitário foi ganhando aliados, vozes, braços. O cuidado virou projeto coletivo, resistência cotidiana.

     Minha história não é exceção. Há muitos – médicos, educadores, cuidadores – que vivem o mesmo drama e o mesmo sonho. O que nos une é essa disposição de não ceder ao cinismo, de continuar acreditando que é possível – e necessário – criar espaços onde a dignidade seja mais do que um conceito: onde ela se torne prática cotidiana.

     A Medicina, quando se alia à esperança e ao trabalho comum, pode ser um dos modos mais concretos de resistir ao abandono. Que nosso compromisso não seja apenas com a técnica, mas com o mundo comum, com a pólis, onde cada vida, mesmo a mais frágil, tenha lugar, voz e cuidado.

     Esse momento é muito importante para mim. Não porque me distanciei de onde vim – de lá trago o que sou. De lá sinto o cheiro da terra molhada, o som da chuva correndo no telhado e descendo pela bica. De lá́ me chegam os sabores, os sotaques, os gestos, o afeto do povo que é meu – do sangue que corre em mim.      Falo da Palmeira dos Índios, em Alagoas – terra de raízes fundas e de horizontes abertos. Lugar onde a gentileza não é formalidade, mas modo de existir; onde o olhar está sempre adiante, mesmo quando os pês ainda pisam a terra vermelha e fértil do presente. De lá vieram artistas, líderes, cuidadores – homens e mulheres que entenderam que estar no mundo é também se dedicar ao outro. É a terra que me formou no silêncio e no gesto, onde vivem os meus e onde repousa, com ternura, o coração da minha origem.

     Aqui, porém, é onde vivo. Aqui criei, com Zélia, nossos filhos. Aqui fiz laços de amizade que serão eternos. Aqui me sinto, também, em casa. E é assim, com o coração em felicidade, que recebo essa honraria. E por esse reconhecimento, a minha alma se enche de esperança e da vontade renovada de enfrentar todos os desafios até concluir a missão que, um dia, se fez sonho – e que hoje se realiza como vida partilhada.

     Agradeço, com o coração pleno, a honraria que me é hoje destinada por esta Casa do povo alencarino. Agradeço ao seu presidente, o Deputado Romeu Aldigueri, e, em especial, ao Deputado Leonardo Pinheiro e ao Deputado Guilherme Sampaio – cidadão cuja trajetória política tem sido, com firmeza e sensibilidade, um testemunho do compromisso com os mais necessitados. É dessa conotação profunda, e não de mero gesto formal, que brota minha gratidão.

     Faço questão de deixar em relevo o seu olhar sempre atento às crianças cardiopatas. Foi ele, ainda como vereador de Fortaleza, quem estabeleceu o Dia da Conscientização da Cardiopatia Congênita no calendário da cidade. E foi também nesta Casa, por iniciativa do Deputado Lula Morais, que essa data ganhou, em sessão conjunta com a Câmara de Vereadores, o reconhecimento estadual. São esses gestos – profundamente significativos – que moldam um mundo mais atento ao sofrimento dos mais vulneráveis.

     O Deputado Guilherme é, para nós, um amigo do Incor Criança. Em momentos críticos, quando o atendimento das crianças esteve ameaçado, sua presença foi mais do que política: foi humana, sensível, firme. A ele, nosso reconhecimento.

     E deixo também um abraço afetuoso à Ana Maria Fontenele, que, enquanto secretária, nos ajudou com o coração aberto, com generosidade rara, com um gesto que não se esquece: o de estar presente quando a presença era mais necessária.

     Agradeço, com igual gratidão, a todos os colegas que, ao longo de minha trajetória no Ceará, fizeram parte de cada passo, de cada tentativa, de cada reconstrução. Com vocês, foi possível conquistar o que hoje existe – e, ainda que muito falte, sabemos que os caminhos futuros já foram em parte abertos pelos passos de muitos. Tivemos, juntos, alegrias profundas, vitórias que jamais serão individuais, pois nasceram do compartilhamento; mas também enfrentamos conflitos, e foi nesses embates que descobrimos algo essencial: a capacidade de permanecer juntos, mesmo quando divergimos, mesmo quando o desgaste parecia vencer. Nessas horas, formamos uma junção de forças – fraterna, resistente – que nos permitiu seguir.

     É nesse espírito que cito, com especial reconhecimento, Klébia – cuja dedicação singular às crianças cardiopatas do nosso Estado permanece como testemunho vivo daquilo que a responsabilidade genuína pode realizar. Por meio de seu compromisso incansável recordo que a ação no mundo só adquire sentido verdadeiro quando está voltada para o cuidado do outro, em especial às crianças.

     Ao estender esse reconhecimento a todos os cardiologistas pediátricos que trilham essa mesma jornada, expresso minha mais sincera gratidão. Sem vocês, seria impossível oferecer às nossas crianças aquilo que a esperança promete: - a sobrevivência e a dignidade de um futuro possível.

     Em cada gesto de cuidado, em cada esforço técnico e humano, reafirmamos juntos a crença fundamental de que o mundo pode ser transformado – não pela força, mas pela perseverança daqueles que se dedicam a fazer do cuidado uma obra coletiva.

     A missão que escolhemos como vida não é jamais uma escolha solitária. Ela se entrelaça, inevitavelmente, à vida daqueles que caminham ao nosso lado – enfermeiros, perfusionistas, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e tantos outros cujos nomes, mesmo que a memória por vezes traia, permanecem gravados na substância do que realizamos juntos.

     São vocês que tornam a vida possível, mesmo quando o necessário é escasso, mesmo quando o que falta poderia desencorajar; mas nunca falta o essencial: o amor intransigente no trato com o outro, a coragem discreta de manter o cuidado vivo em meio às ausências.

     Em especial, agradeço a Waldemiro Carvalho Junior, meu colega de todos os tempos aqui no Ceará. Um homem cuja conduta jamais exigiu defesa, pois se sustenta por si: íntegro, solidário, fiel ao valor do trabalho em grupo, sem vaidade, sem retoques. Compartilhamos tudo o que a vida de um cirurgião é capaz de oferecer – das conquistas às angústias, das decisões solitárias ao silêncio pesado da perda. Juntos vivemos as alegrias que ninguém nos tira. Juntos também experimentamos os sofrimentos que nos marcam para sempre. Há dores que não se dizem – apenas são divididas entre aqueles que estiveram lá. E só nós sabemos o peso dessas ausências.

     Lembro-me também, com respeito e gratidão, de Fernando Mesquita – colega que, nos primeiros momentos da minha trajetória em Fortaleza, estendeu a mão e abriu portas. Foi ele quem me levou à Universidade Federal do Ceará, onde pudemos, juntos, dar os primeiros passos na cirurgia cardíaca. Há gestos que parecem simples no instante em que ocorrem, mas que, com o tempo, revelam sua profundidade. Ter alguém que aposta, acolhe, caminha junto quando tudo ainda é início, é uma das formas mais belas de solidariedade. E a memória desses gestos permanece, não como saudade, mas como fundamento.

     Há também aqueles que já não estão ao nosso lado na rotina, porque trilharam outros caminhos – não pela ruptura, mas por escolhas legítimas, frutos do amadurecimento da vocação; no entanto, permanecem presentes – na memória e nos projetos que, mesmo à distância, continuam a convergir no mesmo sentido: o de cuidar com qualidade, ética e futuro.

     Refiro-me aqui a Juan Mejía – médico e cirurgião de coração, que tem no íntimo a inquietude daqueles que pensam adiante. Em seus sonhos, a cirurgia cardíaca cearense encontrou impulso; por sua coragem e iniciativa, avançamos a passos largos em várias áreas, especialmente no transplante cardíaco e na assistência circulatória. Nascemos cirurgiões juntos. Enfrentamos, lado a lado, os mesmos desafios que forjam a técnica e a solidariedade entre os que escolhem a mesma missão. E sei que, embora sigamos em campos distintos, estaremos sempre juntos onde mais importa: no compromisso de fazer da Medicina um ato de justiça e cuidado.

     Com esses três colegas, e com Haroldo Brasil, fundamos o grupo de cirurgia Cirucárdio – não como um gesto técnico, mas feito um ato fundante, desses que marcam o tempo e transformam a paisagem ao redor. Fundar, como nos ensina a experiência humana, é sempre abrir um espaço novo no mundo. E foi isso que realizamos: criamos um lugar de pensamento e de prática, onde a Medicina pôde se reinventar à altura da urgência das vidas que nos chegavam.

     Com a inestimável colaboração de colegas como Ricardo Martins, João David, Marcos Gadelha, Patrícia Lopes, Ricardo Sardenberg – e tantos outros cujos nomes, mesmo que não estejam aqui escrito, vive em cada passo desse caminho – pudemos inaugurar em Fortaleza um tempo de intensa revolução e evolução na cirurgia cardíaca.

     Foi uma época marcada pela coragem de tentar o novo, pela confiança mútua e por uma ética comum: a de que nenhuma inovação vale se não estiver a serviço da dignidade do outro. A Cirucárdio não foi apenas um grupo: foi uma afirmação coletiva de que, mesmo em contextos adversos, é possível inaugurar o inesperado.

Aos meus amigos anestesiologistas, companheiros de jornada separados apenas por um lençol, deixo meu mais sincero agradecimento. Reconheço em vocês a árdua missão de manter a vida pulsando enquanto, do outro lado, tentamos reparar o que veio ao mundo incompleto.

     Alguns já não estão conosco no cotidiano da luta, mas saibam: não há ausência que apague a presença que deixaram entre nós. O que hoje realizamos carrega muito do que foi edificado com suas mãos, gestos e coragem.

Vocês são exemplos vivos para aqueles que continuam, testemunhos de que toda ação realizada com responsabilidade e amor não se perde – permanece, fecunda e ilumina o caminho dos que ainda seguem.

     Tenho ainda uma motivação que não vem da vaidade nem do orgulho, mas da gratidão – essa forma elevada de justiça que reconhece no outro a condição de ter feito possível o que sozinho seria impensável. Refiro-me aqui a duas pessoas sem as quais o Projeto Incor Criança talvez não existisse como o conhecemos.

     A primeira é Ana Maria – que, com um sentido raro de cuidado, acompanha cada família, cada criança que passa por minhas mãos. Sua presença não conhece feriados, nem cansaço, tampouco distância. Ela é o exemplo silencioso, e por isso mesmo eloquente, do fazer por prazer em ajudar. Seu compromisso não é apenas com uma função, mas com uma missão – e essa diferença se sente no olhar de quem é por ela acolhido.

     A segunda é Josy – que, com discrição e perseverança, tem sustentado a espinha dorsal administrativa do Incor Criança. Seu trabalho incansável, dia após dia, ao longo da vida do instituto, é o que garante sua sobrevivência. E não há exagero algum em dizer que, em momentos difíceis, quando tudo ameaçava ruir, foi ela quem permaneceu. A história da instituição entrelaça-se com a história pessoal que, sem escolher de antemão a causa, a edificou com a entrega da própria vida. Quando a ação persevera no tempo, ultrapassa a esfera do dever para converter-se em testemunho: testemunho de que ainda existem causas pelas quais vale a pena viver, trabalhar e resistir.

     Ao me referir a essas duas personalidades que se tornaram pilares do Incor Criança, estendo meu agradecimento a todos os que, à extensão do tempo, integraram suas diretorias, seus conselhos, suas equipes. Nomino seus presidentes (Maria Márcia Souto Maior, Isabel Cristina Leite Maia, Andréia Nogueira Lopes, Francisco Stônio de Almeida, Waldemiro Carvalho Jr e Diego Guedelha). A todos os colaboradores que, na medida da sua dedicação, ajudaram a construir uma instituição que hoje é lembrada não por sua estrutura, mas por sua missão: cuidar das crianças cardiopatas do nosso Estado. O gesto de reconhecer não é recompensa, mas o ato justo de inscrever na memória coletiva aquilo que foi feito em nome de muitos.

     Guardo um lugar especial e inviolável no coração para aqueles que, mais do que destinatários do nosso trabalho, são sua verdadeira razão de ser: as crianças. São elas que dão sentido aos nossos esforços, à nossa vigília, à nossa entrega cotidiana.

Aquelas cujas vidas logramos restaurar, que conseguimos conduzir de volta ao sopro do mundo, para que se tornem cidadãs plenas, nos servem como alento – como prova viva de que tudo vale, de que cada gesto tem peso e consequência. Não há como não se emocionar diante de um abraço infantil, tão pequeno em corpo e tão imenso em significado.

     Há, também, contudo, aquelas cujos corações não conseguimos reparar a tempo, cujas vidas nos escaparam, não por negligência, mas pelos limites da própria condição humana. A essas crianças – e às suas famílias – quero dizer o que muitas vezes não conseguimos dizer em palavras: sofremos com cada perda. Sofremos porque cada vida importa.

     E só conseguimos seguir porque, no instante em que a dor se faz presente, há outra – e outra, e mais uma criança – a nos esperar. O amor com que cuidamos é o mesmo que sustenta nossa dor. Por isso, entregamos tudo o que temos, com a certeza de que, mesmo na perda, houve dignidade, esforço e humanidade.

     Deixo impresso, como se escreve na argila da memória, meu profundo agradecimento às instituições pelas quais passei – lugares onde a prática se uniu com a esperança e onde o ofício se transformou em missão. Cada uma dessas casas, com suas singularidades, contribuiu para a construção de um percurso que é coletivo por natureza.

     No início, quando ainda trilhávamos o duplo caminho da cirurgia adulta e pediátrica, foi o Hospital São Raimundo, sob a liderança generosa do Dr. Régis Jucá, que me acolheu e me deu espaço para crescer. À Universidade Federal do Ceará – minha porta de entrada para as primeiras cirurgias – devo o gesto inaugural, aquele que transforma intenção em ato.

     Ao Hospital Antônio Prudente, minha reverência pela ousadia: ali, a cirurgia cardíaca pediátrica alcançou outra dimensão, permitindo-nos enfrentar cardiopatias complexas em crianças pequenas, com dignidade e ciência. O Hospital São Mateus foi o solo onde o grupo Cirucárdio se consolidou como coletivo inovador, corajoso em sua vocação.

     Ao Hospital Gastroclínica, minha gratidão pela abertura e confiança que permitiram o nascimento da cirurgia cardiovascular pediátrica no seio do Incor Criança – um gesto que transcende o tempo. O Hospital do Coração de Sobral foi nosso porto em meio à tormenta, sustentando-nos quando a cirurgia cardíaca em Fortaleza enfrentava uma de suas maiores crises.

     Ao Hospital São Camilo, ao Hospital Luiz França e ao Hospital Otoclínica, que acolheram o Incor Criança com generosidade e nos deram abrigo, onde incontáveis crianças puderam ser operadas e cuidadas com o rigor da técnica e o calor da compaixão – minha palavra permanece e permanecerá: gratidão.

Ao Hospital UNIMED, que ao decidir construir um Serviço de Cirurgia Cardiovascular Pediátrica, ampliou seus recursos técnicos e afirma que a vida das crianças merece ser preservada e fruída com dignidade

     Ao Hospital de Messejana, registro minha gratidão e reconhecimento. Foi ali que me foi concedido o espaço para exercer com exclusividade a cirurgia cardíaca pediátrica – não como privilégio, mas como responsabilidade que se renova a cada criança acolhida. Nesse espaço, desdobraram-se todas as possibilidades cirúrgicas, inclusive o transplante cardíaco, tornando-o um lugar onde a vida, mesmo à beira do limite, continua.

     Foi também ali, onde o cotidiano se faz de gestos técnicos e decisões éticas, que vivi vitórias memoráveis, mas igualmente conflitos que, por momentos, me cercearam o exercício da profissão. Tais episódios, ainda que duros, não foram em vão – serviram como ponto de inflexão, como exigência de clareza, como instante de redefinir com quem se caminha junto. Messejana foi e é, para mim, uma verdadeira escola – da Medicina e da vida pública, onde o agir exige coragem e onde o compromisso com a criança, com o outro, permanece como farol.

     Numa situação de exílio, afastado da própria instituição que ajudei a construir o espaço da Cirurgia Cardiovascular Pediátrica – privado do espaço para exercer a especialidade que escolhi como profissão e como destino de vida –, e diante da visão insuportável de filas intermináveis de crianças privadas de assistência, situação que, dolorosamente, ainda persiste, nasceu em mim a decisão de agir.

     Foi assim que, junto a colegas e familiares, fundamos o InCor Criança – uma instituição filantrópica que, há 22 anos, se dedica ao cuidado de crianças cardiopatas, promovendo atendimento ambulatorial e cirúrgico. No espírito da ação que funda o novo, o InCor Criança cuida e dá voz a essas famílias invisibilizadas, tornando-se ponte entre sua dor e a necessidade urgente de políticas públicas mais justas e eficazes.

     Hoje, atravessamos mais um desses momentos que pedem coragem: o desafio de construir o nosso hospital. E, compreendemos que nenhuma ação é possível no isolamento – é na pluralidade, na força de muitos, que reside a esperança de transformação. Assim, é imperativo que possamos contar com o apoio da sociedade cearense. Juntos, podemos mudar uma realidade cruel que ainda impõe a tantas crianças uma existência abreviada ou marcada pela dor evitável.

Estabelecer esse futuro é um ato de responsabilidade pública, uma reafirmação de que, mesmo em tempos de escuridão, a ação humana é passível de reacender a esperança.

     Talvez o mais difícil seja encontrar palavras que expressem, com justiça, a importância da família neste contexto. Não me parece cabível agradecer-lhes – pois são, na verdade, os verdadeiros homenageados.

Foram eles que, pelo amor e pela compreensão paciente, me permitiram dedicar grande parte da minha vida a uma causa que, no fundo, se confunde com aquilo que sou. Enquanto eu me ausentava, empregando horas, dias e anos ao trabalho e à missão, eles permaneciam – presentes, constantes, inabaláveis.

     E quanto mais eu precisava, mais presentes eles se tornavam, como se o amor, na sua forma mais autêntica, fosse justamente essa capacidade de resistir à ausência sem deixar que ela destruísse o vínculo.

     Zélia, Lucas, Rodrigo, Luiza e Antonio: espero, do fundo da alma, que tenha valido a pena. Que a ausência, tantas vezes dolorosa, possa hoje ser compreendida como a outra face do amor – aquele que, por ser imenso, exige também o sacrifício de estar longe para servir a algo maior.

     E antes que as lágrimas embacem por completo minha visão, escrevo – com o coração exposto – sobre o amor que me liga  aos meus pais, Valdester e Frante, e aos meus irmãos: Ana Frante, Alex, Maria das Graças, Doroteu e Maria de Fátima.

Cada um deles, em sua singularidade, trouxe outros amores à minha vida, ampliando o círculo afetivo que me sustenta. Somos, como raramente se vê, uma família de harmonia, não no sentido de ausência de conflitos, mas naquela rara disposição de olhar o outro com generosidade e lutar, juntos, para que o mundo seja melhor.

     Eles se alegram comigo quando há motivo, e se preocupam quando a sombra se aproxima. Entre nós, o amor não é apenas afeto – é prática cotidiana, é presença que atravessa distâncias, é laço que não se desfaz nas dificuldades.

     Na verdade, é esse amor que me funda. E se algo de bom realizei, saibam: foi porque tive com quem contar. Nós nos amamos – e isso, mais do que tudo, é o que me dá força para seguir.

     A todos os cearenses, dirijo minha mais profunda gratidão. Se hoje estou aqui, é porque fui recebido não como hóspede, mas como parte. Sou apenas um elo – pequeno, mas comprometido – na longa cadeia de esforços que, juntos, temos realizado para transformar o Ceará em um lugar mais justo, acolhedor e digno para todos. Este título não me pertence individualmente. Ele se amplia em cada gesto de generosidade que encontrei, em cada desafio que enfrentamos lado a lado, em cada vitória silenciosa que alcançamos com o espírito de quem acredita no valor da luta comum.

     À Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, às autoridades presentes, e, em especial, a todos os que tornaram possível essa homenagem, expresso meu sincero reconhecimento. O que recebo hoje não é um ponto de chegada, mas um chamado à continuidade. Não é uma medalha que se guarda, mas um com- promisso que se vive. Ser cidadão é participar do mundo com responsabilidade – e este gesto me convoca, agora com ainda maior vigor, a seguir contribuindo com tudo o que estiver ao meu alcance para o florescimento desta terra e de sua gente.

     Dedico esta honra àqueles que me acompanharam nesta jornada: amigos, colegas, colaboradores, familiares – cada qual com sua paciência, sua coragem, sua fé no caminho que escolhemos trilhar. Sem vocês, esta trajetória não teria espessura nem verdade.

     Receber esta cidadania é a consciência de que a minha história, que começou em outra paisagem, se entrelaça agora, de forma indissolúvel, à história do Ceará. Aqui plantei raízes. Aqui construí́ família. Aqui aprendi que a casa não é o lugar de onde viemos, mas aquele que construímos juntos. Sinto-me, hoje, atra- vessado por esta terra – e por isso mesmo, responsável por ela.

     Prometo honrar este título não com palavras, mas com ações. Que possamos seguir escrevendo, juntos, a narrativa de um Ceará onde o futuro não seja apenas espera, mas construção cotidiana. Um Ceará forte, plural, sensível à dor e à esperança de cada um de seus filhos.

     Porque no fundo, senhores e senhoras, o que nos une não é o local de nascimento. É a forma como decidimos estar no mundo. E, sobretudo, como decidimos tratar uns aos outros.

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Valdester Cavalcante Pinto Júnior

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