O Costume de Não se Espantar
Quem vem de fora estranha.
E por isso é passível de ver
o que nós, de tanto vermos,
já quase não vemos.
Escandaliza-se com os absurdos,
os pequenos assombros diários
que o costume, paciente,
vai vestindo de normalidade.
É difícil compreender
como o cotidiano consegue
dar à aberração
a aparência tranquila do hábito.
E já nem há vergonha
em quem assedia,
nem constrangimento
nos que o deveriam ter.
Aos olhos de quem chega
tudo assusta.
E, assustando-se,
certamente compreenda
um pouco mais das coisas:
o silêncio,
a indiferença,
a facilidade com que se atravessa
o limite do outro
como se fronteira não houvesse.
E eu,
que vivo isto há tanto tempo,
ainda não me acostumei.
Talvez seja esse
o último sinal de lucidez:
não ter aprendido
a chamar de normal
o que a consciência
ainda não logra aceitar.
Às vezes acho indelicado.
Noutras ocasiões,
doentio.
Muitas vezes,
apenas uma pobreza de espírito.
E há dias
em que me parece
algo ainda mais fundo:
uma escolha consciente
de não enxergar o outro.
Decerto, entretanto, o mais estranho
não seja o absurdo.
É vê-lo repetido,
dia após dia,
até que o absurdo
perca o espanto
e tal surpresa
seja de quem ainda a reconhece.
