O Elogio ao Atraso

Os espíritos delicados suportam melhor uma estulta censura do que um elogio estulto
(JOSEPH ROUX, poeta francês. Tulle,19.4.1834; 4.2.1905)
Vai se achegando o fim do dia. E o corpo, essa máquina pouco consultada, ousa pedir descanso. Curioso. Foi extenso, produtivo, mas, ao que parece, ainda não atingimos o grau de eficiência ideal, quando tudo se resolve antes mesmo de começar.
Teimei em ir além. Mais uma cirurgia — aquela mesma, já íntima do adiamento, suspensa três vezes como se aguardasse autorização de alguma divindade burocrática.
Ao adentrar o centro cirúrgico, já pelo avançado da hora, veio a pergunta inevitável da enfermeira, com a delicadeza de quem conhece a resposta:
— Vai operar o segundo caso?
Ainda animado, ou só incapaz de admitir o contrário, exprimi o sim aguardado. Bastou. Desdobrou-se-lhe um sorriso, desses que misturam alívio e uma ponta de incredulidade. Ela, então, me confidenciou:
— Ele, a criança, logo cedo me disse: “Vou operar agora… e mais tarde a gente pode fazer outra coisa.”
Admirável otimismo. Uma agenda mais organizada do que a nossa.
E eis que, agora, já noite posta, ainda espero para iniciar a cirurgia — contrariando discretamente a lógica, o cansaço e, quem sabe, o bom senso administrativo.
Claro! Tudo isso deveria ser diferente. Faríamos o mesmo — ou até melhor — com pouco esforço, minguada espera, menos desse curioso talento institucional para transformar o simples em tardio. Passa-se um tempo quase filosófico aguardando para começar o que já haveria de estar terminado.
Tentei. E pelejei demais para que fosse diferente. Descobri, contudo, com a humildade que só a repetição ensina, a ideia consoante a qual a realidade tem um apreço particular por permanecer como está.
Assim, opero quando dá, na hora que sobra, com o que há — uma espécie de minimalismo forçado, muito em voga quando não há alternativa. Tampouco vontade proveniente de fora, alheia a mim.
Perfaz, em constância, um sofrimento grande, sem dúvida. Ainda assim, convém não exagerar: é um desconforto quase elegante, se comparado ao daqueles que aguardam, padecendo com paciência involuntária, na esperança de um tratamento que tarda — mas que, dizem, não é possível falhar.
Mais um esforço. Outro dos mil e tantos e muitos passos.
Com efeito, quase por descuido do sistema, mais uma criança se afasta da agonia silenciosa da falta de ar, dos dedos frios, dos lábios arroxeados a contarem histórias que ninguém deveria precisar ouvir.
Como termo, é isso que fica — apesar de tudo, ou talvez por causa disso: a possibilidade, rara e quase subversiva, de uma vida com vida...