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O Peso do Ar

Quisera eu a ataraxia:
a paz que nada pergunta,
o silêncio que repousa
sem precisar ser feliz.

​

Pintei as paredes da alma,
varri os corredores do pensamento,

​

situei cada coisa em seu lugar
e chamei isso de ordem.

​

Por um instante,

tudo pareceu em paz.

​

Mas havia o ar.

​

E o ar não se limpa.
Não se pinta.
Não se ordena.

​

Respira-se.

​

Há coisas que respiramos
antes mesmo de sabermos
que existem.

​

Talvez a paz não seja
uma casa sem ruído,
mas aprender a escutar
o silêncio quando ele pesa.

​

Decerto eu procure a ataraxia
como quem quer ver uma janela,
sem perceber que esta fresta
não muda o mundo:

​

apenas deixa o mundo entrar.

​

E eu, que quisera nada sentir,
descubro, tarde,
que até a indiferença pesa
quando a desejamos demais.

​

As paredes estão limpas.
Os corredores, vazios.
Tudo está em seu lugar.

​

Tudo,
menos eu.

​

Não sei onde guardar
as coisas que ainda respiro.

​

E talvez seja isto viver:

​

não expulsar o peso do ar,
mas aprender, pouco a pouco,
a não chamar de alma
tudo o que passa por ela.

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Valdester Cavalcante Pinto Júnior

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