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Os Tapurus do poder

ChatGPT Image 28 de ago. de 2026, 10_55_23.png

     O poder não é o que se mostra. Ele não se sustenta pela pureza, mas por via da capacidade de permanecer, mesmo quando a estrutura que o ampara já se encontra comprometida. Há uma lógica silenciosa que tolera a deterioração, desde que ela não ameace, de imediato, a aparência de ordem. A ferida, enquanto disfarçável, é administrada — não curada.

 

     E, nesse sentido, o descuido nem sempre é ausência de ação. Muitas vezes, é escolha. Há momentos em que preservar a superfície importa mais do que restaurar a integridade. Assim, o que apodrece não é removido, mas contido, ocultado, mantido sob controle suficiente para não comprometer a estabilidade visível.

 

     Também não se há de ignorar o papel do medo. A ordem que conhecemos, frequentemente, se mantém menos pela justiça e mais pela necessidade de evitar o caos. Aceita-se o desconforto, tolera-se o incômodo, convive-se com o inaceitável — desde que o colapso total não se imponha. A ferida aberta assusta, mas a ausência de qualquer estrutura intimida ainda mais.

 

     Nesse pacto silencioso, o grotesco é relativizado. Ele deixa de ser ruptura e passa a ser parte do cenário. O olhar se adapta, a sensibilidade se ajusta, e aquilo que antes causava repulsa passa a ser apenas mais um elemento da paisagem. Não porque tenha se tornado aceitável, mas porque se fez habitual.

 

     E é assim que o espanto se desgasta. O que deveria provocar reação é, assim, absorvido pela rotina. A repetição anestesia, e o extraordinário se dissolve no comum. A ferida já não mobiliza — somente existe.

Há, entretanto, ainda algo mais profundo: o modo como tudo isso se revela. A exposição da ferida não é neutra. Ela ensina, molda, condiciona. O que se mostra, o que se oculta e o modo como se expõe produzem efeitos. Ver não é meramente constatar — é também ser conduzido a interpretar, aceitar, internalizar.

 

     O poder, então, não está só onde se imagina. Ele circula, infiltra-se em gestos, discursos e hábitos. Ele molda o que se entende como normal, define os limites do tolerável, constrói o campo dentro do qual até a indignação se move. A própria visão da ferida já vem carregada de sentido.

 

Assim, os tapurus não significam pura consequência.

São também linguagem.

 

     Eles referem-se ao abandono que se tornou prática, à escolha em disfarce de inevitável, ao medo que sustenta estruturas frágeis e à repetição dissolvida no espanto. Falam de um poder que não somente falha, mas que, por vezes, se organiza com suporte no próprio malogro.

 

     E talvez o mais perturbador não seja o fato de eles estarem ali, expostos, visíveis.

Isto, porém, representa o tempo que levamos para, finalmente, os enxergar.

 

Porque quando já não há como negar —

não é apenas a natureza que grita.

 

Somos nós, tardiamente, que aprendemos a ver.

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Valdester Cavalcante Pinto Júnior

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