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Político Bufão

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"An Indian Snake Charmer with a Cobra (século XVIII) – Escola Indiana / Álbum Francês de Desenhos."

Ninguém está isento de dizer besteiras. A desgraça, entretanto, é  pronunciá-las com solenidade. (MICHEL EYQUEM DE MONTAINE, filósofo francês).                        

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          Há muito tempo, aprendemos a reconhecer um político por sinais bastante curiosos: o volume da voz, a quantidade de indignação despejada por minuto, a expressão de cólera cuidadosamente ensaiada diante das câmeras e, sobretudo, a extraordinária capacidade de falar durante horas sem permitir que uma ideia – nem mesmo uma --, sobreviva à primeira pergunta. É uma arte antiga. E, como quase todas elas, ganhou somente outros instrumentos.

               Antigamente, o encantador de serpentes necessitava de uma flauta. Hoje dispõe de microfones, redes sociais, algoritmos e uma multidão pronta para confundir barulho com argumento. A tecnologia avançou consideravelmente. O pensamento, principalmente do velhaco/vivaldino, nem sempre.

               Nesse ambiente, surgiu uma espécie de político moderno, cuja principal virtude é parecer indignado. Ele não precisa conhecer profundamente o problema, desde que discirna com profundidade o inimigo. Está isento de oferecer solução, se tiver o lance de apontar um culpado. Dispensável é provar o que diz, caso faça isto com suficiente convicção. É uma extraordinária economia intelectual...!

               O mecanismo funciona porque encontra terreno fértil. A mentira, quando repetida com bastante segurança, toma injustamente o lugar da opinião. A grosseria, ao ser acompanhada de aplausos, vira desarrazoadamente autenticidade. A ignorância, uma vez rebelde, transmuda-se arbitrariamente em coragem. E o ódio - essa velha mercadoria política --, reaparece em embalagem nova, anunciada iniquamente como modernidade. Há sempre quem compre.

               O negócio se completa quando o político sugere – tenciona oferecer --, a explicação mais simples possível para um mundo que, por desgraça, insiste em ser complexo. Boa parcela do público aceita a oferta com gratidão. Pensar dá trabalho. Indignar-se é muito mais fácil. Examinar os fatos exige paciência. Escolher um inimigo reclama somente um dedo apontado. Eis, então, uma das operações mais eficientes da política contemporânea: transformar a preguiça de pensar em identidade finória, com absoluta aparência de urbanidade.

               Os antigos encantadores compreenderiam perfeitamente o método. Sobravam impressionados, ao seu tempo, somente com a quantidade de cobras e, sobretudo, a eles afetava a velocidade da reprodução.

               Nesse espetáculo, o instrumento dos novos e refalsados virtuoses da partitura política não é propriamente a razão. Remansa na excitação. Eles se desobrigam de demonstrar, pois, de inopino, já afirmam. Tampouco respondem, porquanto a ordem é atacar. Pelo fato de ser dispensável convencer, acham logo de provocar. Desassujeitados de razão, subitamente, já impedem que alguém faça a indagação seguinte.

               É, então, que aflora a fragilidade do método. A gritaria funciona enquanto ninguém dá ouvidos. Impõe-se, porém, chamar a atenção para a ideia de que escuta atenta tem o péssimo hábito de indagar — e perguntas são perigosíssimas para discursos constituídos sobre certezas de papelão, que se rasgam com enorme facilidade. Quando o espetáculo termina, descobre-se, com alguma frequência, que havia muito som e quase nenhuma substância.

               Sendo a política levada a sério, a lógica se inverte. O político deveria ser reconhecido por sua capacidade de escutar, desabilitando-se da aptidão desonesta de interromper. Haveria de ter vez a consistência de suas ideias, desprezando-se a quantidade de adversários que consegue insultar. O valor de um postulante a cargo eletivo, por exemplo, há que ser determinado pela sua disposição de construir, rejeitando a facilidade de destruir. Governar está bem distante de conformar a manutenção de uma plateia permanentemente excitada, haja vista ser a ação de administrar a res publica uma realidade sob a qual as pessoas fogem de provar a comoção provocada pelos simulados discursos.

               E a realidade constitui interlocutora particularmente inconveniente. Posterga o aplauso, é avessa a partido e não se deixa intimidar pelo tom de voz. Pior ainda: costuma cobrar a conta. Uma promessa inexecutada continua nessa circunstância, sob esse embaraço, mesmo tendo sido anunciada aos berros. Uma política pública não melhora porque seu autor a descreveu com indignação. Um problema deixa de esvair-se porque alguém encontrou um inimigo conveniente para culpá-lo.

               Com efeito, a política verdadeira começa onde finda a representação. Uma vez desaparecida a relevância dos holofotes, resta o que nenhum discurso consegue esconder por muito tempo: a responsabilidade de decidir, executar e responder pelos resultados.

               Nesse ponto, o político digno afasta-se da caricatura. A ele é desnecessário transformar cada divergência em uma guerra civil, pois, disso ele sabe --, o adversário não é necessariamente um inimigo, tampouco o contraditório significa ofensa, e que mudar de opinião perante de um argumento melhor desconstitui a fraqueza, conformando a inteligência.

               A compleição grotesca da política trilha caminhada oposta. Carece de inimigos como o fogo reclama por combustível. Sem eles, some o assunto; deseixada da indignação, soçobra a plateia; longe da mentira, vai-se a narrativa. Retire-se o espetáculo e remansa o silêncio — e, no silêncio, alguém, finalmente, é capaz de notar a nuditas regis — perceber que o rei está nu.

               A diferença, então, remansa evidente. A caricatura precisa de seguidores, enquanto, para o político, são indispensáveis os cidadãos; demanda por adversários a fim de combater, no mesmo passo em que o outro chama interlocutores para dialogar. A primeira exige repetição e o segundo espera pela verdade, inclusive quando ela lhe é inconveniente; não dispensa falar o tempo todo, quando o político, às vezes, há que usar a inteligência no sentido de calar para ouvir.

               Isso não significa conceder ao governante qualquer espécie de imunidade moral ou política. Todo governo tem de ser fiscalizado, questionado e cobrado. O poder não merece reverência, mas é credor da vigilância. Por tal pretexto, é importante reconhecer quando alguém exerce a política segundo critérios diferentes das pessoas que hoje fazem tanto sucesso.

               A política é carente de trabalho sobre a encenação, diálogo a respeito da provocação e construção concernente à destruição. Carecente é de se compreender que governar não é administrar a própria imagem, mas assumir responsabilidades, enfrentar problemas e produzir resultados amplamente perceptíveis na vida concreta das pessoas.

 

               Há dignidade política nessas expressões. E essa respeitabilidade se faz ainda mais necessária numa época quando a serenidade parece suspeita e o equilíbrio é frequentemente confundido com falta de coragem.

               Um político não há que se exibir furioso para demonstrar determinação, nem humilhar a fim de exprimir autoridade, tampouco produzir inimigos com vistas a comprovar ser detentor de convicções. Seu intento está na conjunção dos atos de  trabalhar, ouvir, decidir, errar e corrigir, explicar e responder.

               Mais do que isso, ele há de compreender que a política está distante de configurar um palco destinado à exibição permanente do próprio ego, mas conforma responsabilidade pública exercida em nome de pessoas que continuarão vivendo muito depois que os discursos forem esquecidos.

               Essas constituem as diferenças essenciais entre o político e o bufão político: um vive da atenção; o outro, da responsabilidade. Um carece ser ouvido; o outro, avaliado. Um mede a força pela multidão que consegue enfurecer; o outro, pelos problemas que logra resolver.

               Governar é escolher, assumir consequências e trabalhar para que a vida pública produza resultados — mesmo quando não há aplausos. A política é serviço, não espetáculo; compromisso, não performance.

               Aqui se lobriga a dificuldade de governar. Gritar exige apenas voz, convicção e uma plateia disposta a aplaudir. Governar pede algo bem mais raro: paciência para compreender, coragem a fim de decidir, humildade com o escopo de reconhecer limites e persistência no intento de continuar trabalhando quando já não há câmeras, manchetes ou aplausos. O espetáculo termina todos os dias; as consequências das decisões, não.

               No fim, a política verdadeira não será lembrada pelo volume das palavras, mas pela qualidade dos teores edificados. Quando as paixões diminuem, os discursos envelhecem e os personagens deixam de ocupar as telas, resta a pergunta mais simples — e a mais incômoda:  -- o que ficou?

               Perante essa indagação, o político encontra seu verdadeiro julgamento, porquanto, nela, a retórica perde força e a realidade é expressa.

               A história é implacável nesse julgamento. Ela é capaz de registrar frases, discursos e gestos de indignação, mas é o resultado concreto das escolhas a determinar o que permanece. O tempo reduz o ruído, desmonta as personagens e devolve à política sua medida mais elementar: o que foi feito em benefício da sociedade.

 

               Governar, no fim das contas, é aceitar essa medida. É trabalhar sabendo que a autoridade passa, a popularidade muda e o espetáculo termina, mas as consequências permanecem na vida das pessoas.

               O político bufão precisa gritar para parecer forte. O verdadeiro político trabalha para que, quando o grito terminar, alguma coisa permaneça.

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Valdester Cavalcante Pinto Júnior

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