Sobre Almas, lucros e outros
detalhes irrelevantes

A moral serve sempre a quem não a pratica.
O trabalho médico, dizem, é mais do que uma profissão. E como ousar discordar?
Há quem considere que lidar diariamente com a morte, a dor e a imprevisibilidade do corpo humano seja apenas um hobby, particularmente mórbido. O médico (pobre criatura!) não é meramente um técnico, mas uma espécie de místico secular, condenado a enfrentar o sofrimento alheio com a mesma serenidade com que um santo arrosta tentações. E, como todo santo útil, é imediatamente transformado pela sociedade em algo bem mais prático: uma ferramenta barata.
Sim, é verdade: a medicina, essa arte nobre, esse sacerdócio moderno, converte-se facilmente naquilo que toda virtude vira quando cai nas mãos certas — uma mercadoria vistosa, empacotada e vendida ao melhor preço. E o médico? Ah, esse felizardo! Uma engrenagem substituível, um objeto que se desgasta e, como tudo o que se desgasta, deve ser trocado — de preferência por alguém mais barato.
Não me remeto a um trabalhador comum, desses que trocam horas por moedas e ainda conseguem dormir sem crise existencial. Não. O médico penetra um jogo peculiar, no qual sua alma — termo antiquado, mas conveniente — é mexida, remexida e raspada diariamente. Ele é convidado, com toda a delicadeza de um carrasco gentil, a sacrificar-se por um tal “bem maior”. E quem ousaria negar tão belo ideal? Ninguém menciona (é claro!) que esse sacrifício tem menos de nobre e mais de malandro: constitui estratégia engenhosa para que aceite jornadas absurdas, remunerações indignas e condições de trabalho que fariam corar um feitor do século XVIII.
A medicina deveria ser o triunfo da humanidade sobre a dor; entretanto, como tudo capaz de produzir lucro, torna-se um território governado pela contabilidade e por esses seres iluminados que entendem planilhas como mais importantes do que pessoas. O médico, esse ser outrora autônomo, transforma-se, então, em acessório indispensável da máquina — não muito diferente de uma válvula barata que se troca quando começa a dar trabalho.
E por que não? Parece tão eficiente...
É nesse momento que a tragédia desperta, boceja e se instala confortavelmente. O médico descobre haver sido enredado num labirinto de obrigações morais que não servem para proteger ninguém, exceto o sistema que as inventou. A própria vida — somente um detalhe — não merece descanso, tampouco reconhecimento. Ele deve ser compassivo, sempre, e, simultaneamente, indiferente ao fato de que sua compaixão não lhe rende paz, muito menos segurança. Sequer uma noite de sono decente. O sacrifício, outrora virtude, se transmuda em dever obrigatório, como se tivesse assinado um contrato vitalício com a própria exaustão.
E quem, fechado o firo, ganha com tudo isso? Certamente, não o médico. Há, constantemente, porém, aqueles administradores, gestores, autoridades e outros espécimes raros que, vivendo longe do som das máquinas de hospital e do odor da dor humana, conseguem enxergar no médico aquilo que realmente importa: um trabalhador maleável, moldável, explorável — quase um personagem de ficção útil para gerar estatísticas positivas.
O trabalho que deveria ser expressão da autonomia humana torna-se, então, uma prisão tão bem desenhada que quase parece racional. A medicina, em vez de libertar o médico, o captura. No lugar de transformar dor em transcendência, transmuda vocação em cinzas.
Não. Este problema não se resolve com meia dúzia de reformas cosméticas, dessas que os burocratas proclamam com o entusiasmo de quem acredita que pintar as paredes de um navio afundando o tornará flutuante. Trata-se de algo mais profundo: da própria identidade do médico, sequestrada pelo sistema que finge venerá-lo enquanto o consome.
Isto porque o médico deveria ser um criador, não um servo; um agente de si mesmo, não um fantoche movido a escalas impossíveis; mas que extravagância esperar isso! O sistema — essa entidade faminta, tão delicada quanto um leviatã adolescente — precisa desesperadamente da submissão do médico. E este, isolado, esmagado pelas exigências morais que lhe jogaram ao colo, aceita, ao fim, entregar não apenas sua força, mas a própria essência.
Para remate da estória, o que resta? Um profissional que, ao tentar salvar o outro, perde-se de si mesmo. Uma figura que deveria ser guardiã da vida e acaba sendo vítima de uma lógica que dele arranca a própria humanidade — com recibo e tudo.
Não, entretanto, pois sempre haverá outro médico pronto para ocupar seu lugar.
O sistema penhoradamente agradece...